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Arrogância, nenhuma pompa

Arrogância, nenhuma pompa

foi crucificado ou crucificou-se

Seu martírio veio da pura imperfeição

Genuína fraqueza, seus ferimentos, pois rastejava apenas

Um incomensurável azar, seu carrasco

Vivia crucificado

Na horizontal, canetas fincadas nas mãos, uma viga de papel

Letras, sílabas, palavras, versos, sobrepunham-se

Formando a cruz

E como não tivesse quem o erguesse a prumo

Deitado seguia seu suplício olhando o céu

E pensava

em pedir perdão porque escrevia

Idiotia

Os jovens experimentam a iconoclastia
Até que se grite: EI!
É claro que todo conservador de vinte anos é um idiota
Que o senhor socialista é um idiota
Que esse frasco é um idiota

É claro que há corrupção
É claro que uns sim, uns não
Mas todos, todos, todos

E décadas se passaram
E só eu lembro de Funes,
mas estou vivo, vivo,
Vivo por agora e por aqui adentro

Memórias de juke – 24/4/2009

Na juke, a cada três ou quatro minutos, renovava-se o naipe de metais à la mariachi. Depois meu resto de consciência retornava pra mesa, pro copo, pro cinzeiro, até pro assunto. Não dá pra ficar atento o tempo todo com a cornucópia (trocadilho acidental) de música sertaneja. Minha genética metropolitana e cabeçóide tampouco durava em escrutinar o tanto de “cultura popular” – e exótica pra mim – que me entrava pelos ouvidos. Tentei falar que-porra-de-raíz-que-nada! Isso é mariacchi. O que não for, é pop-lixo-latino. As caras de paisagem que vi, que me viam, trouxeram minha atenção pro copo de novo. Bebo rápido demais nessas ágapes. Difícil, não vai dar pra ver o sol nascer. A diferença é que por aqui é chapéu de caubói, na América espanhola é visual de metaleiro-de-banho-tomado. Eu devia comer algo, tomar água. Cruel é estar nesse boteco sórdido, que tudo respira sórdido, e nada do sórdido legal. Um maluco engraçado, umas desclassificadas, uma outra juke totalmente, sinuca de ficha. Tipo sordidez antisséptica, aqui. Talvez aquela coxinha velha da vitrine, a batalha das benesses da farinha no estômago com o biohazard da fritura velha. “Quer saber?” – ninguém fez cara de quero-saber – “tô fora da reforma ortográfica e vou hifenizar até a puta-que-os-pariu”. Acho que tá cedo pra soltar palavrão, de mãe e tal, mesmo que a puta-que-os-pariu esteja esvaziada de sentido. Se quiser ofender alguém, chama de “bobão”, Aí, bobão! Desconcerta um sujeito, parte pra ignorância ou responde bobão-é-seu-nariz? Não sou muito íntimo. Se eu mudar pra 51, vou ter que rachar a conta igual? Tô curto, podia pegar um táxi pra vazar. Tipo agora. Aparentemente, alguém gastou o salário no diabo da juke, deve ser aquele indivíduo estacionado que nem um dois-de-paus em frente à máquina dos infernos. Tem som que a gente ouve que tinha que ser inconfessável, ouvir trancado. Credo, coxinha nojenta (tem aquela pimentinha, amigo?). Hoje meus dias são de tristeza e solidão, trago em minh’alma uma profunda conformação; renunciei meu grande amor, um dia, até que é massa essa música. Preciso ir embora. Estamos todos olhando pra melhor bunda-solteira do recinto e comentando e tal, que a gente gosta muito e tal, o que que a gente fazia se pegasse e tal. Deixa eu ver quem parece mais travado que eu. Minha carona, virgem-santa, olhos-bóia. O salgado deu uma aliviada, mas tem gente saindo, deixando bolinhos de dinheiro embaixo do saleiro. Isso às vezes é bom, às vezes é péssimo. Não toque em mim! Hoje descobri que você não é nada, essa até eu conheço, lá-lá-iá, fazer amor pra te ferir lá-iá-lá-iá, não-sei-que-mais, preciso vazar. O problema dessa música – traz mais uma, velho – é…está na indústria cultural, nós somos o produto, meu chapa, e somos nós mesmo que tragamos…que pagamos, tá ligado? Putz, tem aquela voz dentro de mim dizendo que eu parei de fazer sentido, se já não estava antes, você-não-é-daqui-né? Não. Preciso vazar.

E vamos nós em prece – 9/3/2009

Escrevendo de penetras em um mundo já tão repleto de letras mais ou menos organizadas. Agora vemos com surpresa que até da direita pra esquerda se escreve – e nesses textos que para nós são criptográficos só de existirem, podem estar as mensagens mais importantes.

Carpideiras às avessas de um muro, que não foi mero empilhamento de pedras, mas cada pedra que caía foi uma pedra posta sobre cada uma das questões que pareciam resolvidas, e deixaram de ser.

Foi sempre tão fácil dizer: quem não é meu amigo é meu inimigo, e que os amigos estejam próximos, e que os inimigos estejam mais próximos. Mas sem saber quem é quem, qual é o bem real que alguém nos faz, os camaradas e descamaradas se aglutinaram tão próximos à nossa volta, que todos estão a pisar nossos pés e a dividir nosso ar.

E olhamos desconfiados dos quaresmeiros, que quem se esquiva de um suposto canibalismo com tanto fervor, há de ter em si um quê de divindade.

Medo de que dê tempo de dizer tudo, ainda que sóis invisíveis vão aparecendo sobre nossas cabeças (protetor sessenta, setenta, mil?), e quedemos mudos sem gostar.

Sigamos definindo tudo aquilo que nos surpreende e confunde como o avesso do avesso, pensando ter ludibriado a morte, essa única coisa a ludibriar, essa única coisa que não dá para tratar com ludíbrio. Quando estivermos desenganados, estaremos livres do engano?

*Vou publicar aqui o que publiquei por algumas semanas no extinto “cultblog” (e redivivo “página cultural“), pra efeito de arquivo e nuvem e vontade. E pra desenferrujar as engrenagens do wordpress.