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Idiotia

Os jovens experimentam a iconoclastia
Até que se grite: EI!
É claro que todo conservador de vinte anos é um idiota
Que o senhor socialista é um idiota
Que esse frasco é um idiota

É claro que há corrupção
É claro que uns sim, uns não
Mas todos, todos, todos

E décadas se passaram
E só eu lembro de Funes,
mas estou vivo, vivo,
Vivo por agora e por aqui adentro

Só no sebo

O problema das livrarias começa com a maioria delas estando enterrada dentro de um Shopping Center. Acho que se pode dizer que quem gosta de livros os consome, mas é um consumo algo mais pagão e multifacetado do que o possível no templo da gordura hidrogenada e do “sale” (sapore di sale, sapore di mare). É claro que depois a crise passará pelos livros: de cara, a vitrine é um espantalho (Nevermoooore,  vaza, malandro!). Os primeiros passos me colocam em contato com ilhas temáticas, todas elas vão me ajudar em alguma coisa: ficar magro rico feliz culto. Existem livros – é claro – e muito mais: derivados de livros, como se livro fosse leite, que azeda e vira algo ainda mais legal. As pulgas do Marley, as espinhas do Harry Potter, o Segredo (do Morcego, do management, do escambau), a dieta de empresário de sucesso, os dez mandamentos de qualquer coisa. Tem também essa conversa de “edições belíssimas”: se pega um escrito (mais dos “highbrow” e preferencialmente de domínio público) e toca a pôr papel esquisito, livro que abre pra cima, dentro de caixa, com bordadinho.

Volta e meia eu ganho um livro de presente (porque eu “leio muito”) e é batata: lista da Veja, “diz que é muito bom” e tome sofrimento, garimpando pra trocar por algum livro sobretaxado em “edição belíssima” de um texto grego ou coisa que o valha. Sou a favor de livraria vender cerveja, que eu troco por crédito na loja.filhos-do-povo-thn

Sebo é outra história, que também tem suas chatices, mas é onde se encontram os livros legais, naquela puta bagunça, preço baratinho (em sebo fresco de quem “sabe o que está vendendo” eu não entro). Livros pra levar e ler. E pra falar de edições especiais, qualquer livro que venha do sebo é único, com suas orelhinhas, “pertence a…”, com anotações às vezes esquizofrênicas, carimbos, marcadores de página bizarros.

Este papel que segue encontrei em um livro, que não me lembro qual, um hino anarquista espanhol transcriado aqui para o português, presente em várias publicações operárias. Seria o original? Cosac-Naify não faz melhor em termos de eye-candy.

Filhos do Povo

Filhos do povo, que sofreis em extremo,

Lenta agonia, sem luz e sem ar,

Mais vale o esforço de um acto supremo;

Se a vida é pena, mais vale lutar!

Mais vale lutar!

Esse vil mundo que atrós vos consome

Sobre esses hombros, despotico está;

Lançai-o à terra, mataio de fome

Força suprema (viril), que o braço vos dá!

Revolução! abre o porvir

A exploração ha-de sucumbir!

Ação, ação, não pedir leis;

Valor e união que livre sereis

Tomai de vez, o bem estar

Contra o burguês

Lutar! Lutar!

Quando num gesto viril soberano

Numa revolta de anteu produtor

Dissipe o homem, neblina de engano

Retome a terra, repila o Senhor!

Repila o Senhor!

Sobre o escombros a livre comuna

Sem leis e sem amos, vivaz surgirá!

Que a liberdade, na vida nos una,

Se tudo é de todos, escravos não há!

Ah Revolução! abre o porvir.

A exploração hade sucumbir

Ação, Ação, não pedir leis

Valor e união de livres sereis

Tomai de vez, o bem estar

Contra o burguês, lutar, lutar!