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Tudo.

Te aquieta, aquieta

Não queira me ter

Só queira me ter agora

no tempo parado.

Esquece a excitação histérica

Ignora toda escola

Enquanto caminha no quarto

e sente o ar parado bater nas carnes

mais brancas, menos

afeitas aos tatos.

Começa a pousar teus ossos

Nas cobertas, nas mobílias, nos tapetes

Com o tempo, tudo some,

Tudo soma e acontece.

Ignora e sente meus dentes,

Larga a voz.

Entende a dor, sonda

Já estamos dissolvendo

Aperta o corpo querendo

meu espaço; estou aonde você está.

Todas as vísceras são agora,

cabelos, dedos, líquidos.

Quem podia imaginar

o mundo sem chão?

Tudo.

E vamos nós em prece – 9/3/2009

Escrevendo de penetras em um mundo já tão repleto de letras mais ou menos organizadas. Agora vemos com surpresa que até da direita pra esquerda se escreve – e nesses textos que para nós são criptográficos só de existirem, podem estar as mensagens mais importantes.

Carpideiras às avessas de um muro, que não foi mero empilhamento de pedras, mas cada pedra que caía foi uma pedra posta sobre cada uma das questões que pareciam resolvidas, e deixaram de ser.

Foi sempre tão fácil dizer: quem não é meu amigo é meu inimigo, e que os amigos estejam próximos, e que os inimigos estejam mais próximos. Mas sem saber quem é quem, qual é o bem real que alguém nos faz, os camaradas e descamaradas se aglutinaram tão próximos à nossa volta, que todos estão a pisar nossos pés e a dividir nosso ar.

E olhamos desconfiados dos quaresmeiros, que quem se esquiva de um suposto canibalismo com tanto fervor, há de ter em si um quê de divindade.

Medo de que dê tempo de dizer tudo, ainda que sóis invisíveis vão aparecendo sobre nossas cabeças (protetor sessenta, setenta, mil?), e quedemos mudos sem gostar.

Sigamos definindo tudo aquilo que nos surpreende e confunde como o avesso do avesso, pensando ter ludibriado a morte, essa única coisa a ludibriar, essa única coisa que não dá para tratar com ludíbrio. Quando estivermos desenganados, estaremos livres do engano?

*Vou publicar aqui o que publiquei por algumas semanas no extinto “cultblog” (e redivivo “página cultural“), pra efeito de arquivo e nuvem e vontade. E pra desenferrujar as engrenagens do wordpress.

É possível votar com consciência?

Mais uma do departamento de niilismo.

A cada dois anos, a ladainha é a mesma. Se entre os candidatos até que há um revezamento entre dinossauros e noviços, a parte do eleitorado que opina por aí é muito menos mutável.

O que justificaria uma consistência ideológica – vá lá, “sou socialista”, “sou trabalhista”, “sou social-democrata”, “sou liberal” – dentro do espectro político brasileiro, esquece. Partidos são mobiliário de aluguel, um pregão em que os valores são o tempo de TV e o peso relativo de cada voto na legenda-quimera. Nada de novo por aí.

Um cara de princípios que ultrapassem o hoje-em-dia não vota em ninguém. Não poderia. Mas a danada é a arte do possível, não é? Do outro lado da tabela, quem diz que político é tudo igual tem a obrigação de anular o voto, mas nunca. A gente conhece a trama, fazer figa pra todo homem público, à torto e à direito, é um salvo-conduto imaginário contra a otarização que sofremos e sofreremos no próximo exercício.

Escolher por eliminação – estratégia tão jóia quanto as outras – pode mascarar dramas de consciência, mas não funciona como redutor de responsabilidade.

Escolher um perdedor certo pode valer um título de fera romântica do ano no botequim, só que, no mais das vezes, é simplesmente um voto afetado e covarde. Covardia que apareceria se o referido candidato corresse algum risco de vencer a peleja.

Há que escolher, e queremos pensar que votamos com consciência. Mas eu me pergunto, dado que vou votar enfim em um deles:

Que aberração sanguinária, desumana e estupefaciente essa pessoa ou organização teria que cometer pra que eu retirasse meu voto dela?