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Que sumam…

Que sumam as beldades venturosas

Não quero as mães de meus filhos aeróbicos

Nem o enfeite de um homem impávido

Mas tu? tu partires?

A alma gêmea do trapo esquálido

A metade de uma jura de amor no sofrimento

Sofro que sofro por aí; sofro que sofro sozinho.

Ainda vago pelo nosso caminho e vejo teu sangue no cercado

No farpado da lembrança

da agonia feliz de sofrer junto, muito.

Ignora o passarinho – 31/3/2009

Às vésperas de um casamento de amigos, já estou preparado: velho terno desbotado ou coisa assim, mais botões que um dia das mães e tome gravata – esse flagelo colorido. E dá-lhe fotografia.

Existe um contra-senso na tomada de fotografias. No tempo do daguerreótipo, tudo bem: uma tomada podia levar até trinta minutos pra impregnar uma placa de vidro mijada. Mas a fotografia só virou fotografia quando conseguiu nos mostrar uma espécie de microscópio de tempo. Disparos de milésimos de segundo mostravam momentos decisivos dentro do mundo que nossa visão contínua via mas não enxergava.

Não sei se tem a ver com a ditadura da beleza ou da alegria, mas as fotos que vão roubar mais alguns pedaços da minha alma neste sábado estão coreografadas de antemão: as cabecinhas inclinadinhas direcionadas a um ponto de fuga engessado, fingindo a alegria que deveras sentimos, tudo pra acabar numa pilha de bits, tão igual a tudo, que escorrega da nossa memória pra uma memória magnética da qual ninguém lembra.

Bora ignorar o passarinho, nunca mais falar xis, vamos ver o que o milésimo esconde de nós, vamos velar e revelar nossas próprias personas. Mil grãos de arroz suspensos, cada um mirando pra onde queria, fazendo sua própria foto na memória, enquanto o profissional clica tudo sem juízo, só beleza.

E vamos nós em prece – 9/3/2009

Escrevendo de penetras em um mundo já tão repleto de letras mais ou menos organizadas. Agora vemos com surpresa que até da direita pra esquerda se escreve – e nesses textos que para nós são criptográficos só de existirem, podem estar as mensagens mais importantes.

Carpideiras às avessas de um muro, que não foi mero empilhamento de pedras, mas cada pedra que caía foi uma pedra posta sobre cada uma das questões que pareciam resolvidas, e deixaram de ser.

Foi sempre tão fácil dizer: quem não é meu amigo é meu inimigo, e que os amigos estejam próximos, e que os inimigos estejam mais próximos. Mas sem saber quem é quem, qual é o bem real que alguém nos faz, os camaradas e descamaradas se aglutinaram tão próximos à nossa volta, que todos estão a pisar nossos pés e a dividir nosso ar.

E olhamos desconfiados dos quaresmeiros, que quem se esquiva de um suposto canibalismo com tanto fervor, há de ter em si um quê de divindade.

Medo de que dê tempo de dizer tudo, ainda que sóis invisíveis vão aparecendo sobre nossas cabeças (protetor sessenta, setenta, mil?), e quedemos mudos sem gostar.

Sigamos definindo tudo aquilo que nos surpreende e confunde como o avesso do avesso, pensando ter ludibriado a morte, essa única coisa a ludibriar, essa única coisa que não dá para tratar com ludíbrio. Quando estivermos desenganados, estaremos livres do engano?

*Vou publicar aqui o que publiquei por algumas semanas no extinto “cultblog” (e redivivo “página cultural“), pra efeito de arquivo e nuvem e vontade. E pra desenferrujar as engrenagens do wordpress.

Mídias sociais

Pode-se até inferir uma naturalidade na gloriosa ciência do marketing, ver que as novidades em matéria de promoção cruzam fronteiras sem o menor problema. Quem bolou a primeira notinha xerocada no estilo “senhoras e senhores estamos aqui”? E quanto tempo levou pra “virar viral”?

A nota abaixo recebi em uma Montevidéu decadente, cheia de meninos de calle:bilhete.jpg

A seguinte recebi de um amigo guardador de carros, um libelo pela evolução do transporte público. Um tanto de polissemia pra quem gosta:
amigo-2real.jpg

Alguém usou o PageMaker – quem sabe – fez o layout, meteu na gráfica, teve guilhotina e aquela colinha vermelha de fazer bloquinho, tudo pra conseguir um amigo, uma espécie de “me add aê, senão…”. Mas eu estava sem trocado.