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Em nome de Deus não se fazem só porcarias

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Memórias de juke – 24/4/2009

Na juke, a cada três ou quatro minutos, renovava-se o naipe de metais à la mariachi. Depois meu resto de consciência retornava pra mesa, pro copo, pro cinzeiro, até pro assunto. Não dá pra ficar atento o tempo todo com a cornucópia (trocadilho acidental) de música sertaneja. Minha genética metropolitana e cabeçóide tampouco durava em escrutinar o tanto de “cultura popular” – e exótica pra mim – que me entrava pelos ouvidos. Tentei falar que-porra-de-raíz-que-nada! Isso é mariacchi. O que não for, é pop-lixo-latino. As caras de paisagem que vi, que me viam, trouxeram minha atenção pro copo de novo. Bebo rápido demais nessas ágapes. Difícil, não vai dar pra ver o sol nascer. A diferença é que por aqui é chapéu de caubói, na América espanhola é visual de metaleiro-de-banho-tomado. Eu devia comer algo, tomar água. Cruel é estar nesse boteco sórdido, que tudo respira sórdido, e nada do sórdido legal. Um maluco engraçado, umas desclassificadas, uma outra juke totalmente, sinuca de ficha. Tipo sordidez antisséptica, aqui. Talvez aquela coxinha velha da vitrine, a batalha das benesses da farinha no estômago com o biohazard da fritura velha. “Quer saber?” – ninguém fez cara de quero-saber – “tô fora da reforma ortográfica e vou hifenizar até a puta-que-os-pariu”. Acho que tá cedo pra soltar palavrão, de mãe e tal, mesmo que a puta-que-os-pariu esteja esvaziada de sentido. Se quiser ofender alguém, chama de “bobão”, Aí, bobão! Desconcerta um sujeito, parte pra ignorância ou responde bobão-é-seu-nariz? Não sou muito íntimo. Se eu mudar pra 51, vou ter que rachar a conta igual? Tô curto, podia pegar um táxi pra vazar. Tipo agora. Aparentemente, alguém gastou o salário no diabo da juke, deve ser aquele indivíduo estacionado que nem um dois-de-paus em frente à máquina dos infernos. Tem som que a gente ouve que tinha que ser inconfessável, ouvir trancado. Credo, coxinha nojenta (tem aquela pimentinha, amigo?). Hoje meus dias são de tristeza e solidão, trago em minh’alma uma profunda conformação; renunciei meu grande amor, um dia, até que é massa essa música. Preciso ir embora. Estamos todos olhando pra melhor bunda-solteira do recinto e comentando e tal, que a gente gosta muito e tal, o que que a gente fazia se pegasse e tal. Deixa eu ver quem parece mais travado que eu. Minha carona, virgem-santa, olhos-bóia. O salgado deu uma aliviada, mas tem gente saindo, deixando bolinhos de dinheiro embaixo do saleiro. Isso às vezes é bom, às vezes é péssimo. Não toque em mim! Hoje descobri que você não é nada, essa até eu conheço, lá-lá-iá, fazer amor pra te ferir lá-iá-lá-iá, não-sei-que-mais, preciso vazar. O problema dessa música – traz mais uma, velho – é…está na indústria cultural, nós somos o produto, meu chapa, e somos nós mesmo que tragamos…que pagamos, tá ligado? Putz, tem aquela voz dentro de mim dizendo que eu parei de fazer sentido, se já não estava antes, você-não-é-daqui-né? Não. Preciso vazar.

Morde e assopra no chorinho

O chorinho talvez seja um dos únicos gêneros musicais designados no diminutivo (senão o único – tentei puxar pela memória e nada). Sempre alguém pode dizer um sambinha, um jazzinho etc., mas tudo isso é apelido; chorinho é Chorinho da Silva, seu criado.
Já ouvi um papo-teoria de que os criadores do chorinho por aqui e do blues nos esteites eram todos arrancados e escravizados de uma mesma tribo africana. Como uma boa teoria passada adiante via Internet, não lembro onde escutei, não sei se é verdade e passo adiante. No fim das contas, a hipótese vem de serem gêneros de músicas tristes ou geradas no sofrimento (afirmação que também é discutível).

Mas blues e chorinho são essencialmente diferentes. O chorinho parte de um princípio de complexidade ímpar na música popular e talvez aí resida seu principal problema. Por ser difícil fazer o básico no chorinho, não basta dois manés embriagados, uma timba e um violão pra tocar chorinho; ou um moleque que acabou de aprender a pentatônica e azucrina o mundo com o seu “feeling”. Tocar chorinho é coisa pra instrumentistas de alguma tarimba e o problema referido acima pode ser este: é um gênero de pouquíssima renovação, evolução. Tão bem acabado já ao nascer não precisava estagnar. O que vemos é, de um lado, os pioneiros em volta dos sessenta anos de carreira e, de outro, uns CDF’s academicizados mimetizando os velhos mestres, com ares de museólogos.

Ouvir chorinho é bom demais, principalmente ao vivo, mas ao longo de sua história poderia ter se desdobrado mais. É o que tira os gêneros da ameaça de virar folclore e os mantém no popular.

Segue “choro”, bonito tema do Premeditando o Breque:

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por helil

Boas festas

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