Tag Archives: silêncio

Dois gatos

O gato que vira lixo

E o gato na almofada

São gatos os dois

Nunca

Um é gato na almofada

O outro é gato depois

 

Um é gato de dia

Nos pelos e nas preguiças

O outro vira lixo

Nas unhas e nas malícias

 

Um é gato de noite

E briga contra um Deus pardo

O outro na almofada

Ludibriando um Deus dono

batizado

A cor do seu corpo oculta pela lama noturna

Rasteja por entre as flores rasteiras que crescem e minguam na areia.

Enegrecida, seus olhos acesos em rosa buscam vultos pra não encontrar.

Suspira salitre das ondas, que a praia espalha pros lados.

Tão longe esquecemos quem éramos e desnecessários que éramos.

No escuro, a prata e o silício reluzem silêncio.

Na praia, o vício de você me proporciona proporções.

A manhã traz um corpo doce estirado nas dunas que descreve arcos e me diz meu nome.

E eu me batizo da imagem.

Quandos

Nas horas erradas

As mãos sumidas

Meados da noite

Confortos ausentes

Ela não está quando chamo

Não está, apenas quando chamo

 

Não sei se devo pensar que é necessária a todo momento

Se quando não está que é necessária

Ignoro o que seja sua falta na hora que a tenho.

Pronto pra morrer,

Ignoro o que é viver,

pois vivo movido a imperfeição

É quando a imperfeição não existe.

 

Então, ilhado entre dois mundos de tempo

Enquanto uns suspiram que é ontem

e outros bocejam que é hoje

Momento em que só eu existo e me faço existir

É quando crio

Quando tento equilibrar seu vácuo

com gags lacrimosas

Que admito chamar versos

Comensais

– Bom dia, principal!, disse o alternativo.

– Muito bom dia, alternativo! Que bons ventos o trazem?, disse o principal.

– Trago uma fantástica garrafa de cabernet, para seu deleite.

– Muito amável de sua parte, tenho aqui umas tacinhas da Boêmia…que já as conhece, verdade? Alternativo sorriu e continuou: – Aliás, jamais seria tão cabotino de não prestar-lhe a vênia do reconhecimento. Nunca deixo de lembrar que esse néctar não estaria em nosso banquete, não fosse a sua vigilância.

– Não tem de quê, alternativo. Pela arte e pela cultura. – ergueu a taça de cristal contra a terça-feira ensolarada, o augusto âmbar projetou o caramelo-púrpura em suas faces gordas. Escrutinou o aroma da delicada bebida com suas narinas sem pelos. Finalmente, não sem antes voltivolear o líquido do delicado recipiente, tenteou um pequeno gole. – Soberba fermentação, fantástica!

– Eu sabia que seria do seu agrado. As notas tânicas hão de adstringir as dificuldades da vida. – e mostrou os dentes no que seria uma gargalhada sem som.

– Mas…seriam notas de chocolate o que percebo? Talvez cassis…

– Sem dúvida, principal, seu palato é uma potência…À nossa! Ad vitam aeternam!!

– Ah, alternativo, alternativo. Só mesmo você para trazer à lembrança nossa tradição romana em tempos de ameaças graves ao nosso humílimo império. – e golpeou conjurando por três vezes a mesa de madeira-de-lei do solário onde se encontravam (elegante e dissimuladamente, com a ponta dos dedos – mas não sem que alternativo notasse e mudasse de expressão, comiserado).

– Tem estado ruim, não? – indagava alternativo, mas prosseguiu: – As coisas sempre se ajeitam, já sabemos, a história nos conforta.

Principal havia deixado sua mente perambular: o olhar vago, preso a um ponto distante que só poderia ser o da fuga imaginada, enquanto instintivamente trabalhava a bebida com as mãos, com o olhar, com os goles. De súbito, como que chacoalhando maus pensamentos (que seriam um desrespeito à tão excelentes uvas) para fora das idéias, enquanto era observado com anuência por alternativo, resolveu ater-se a assuntos mais prazerosos e à mão: Mas, afinal, de que safra, de que casa seria este vinho maravilhoso?

– Rouanet, 2009, disse alternativo.

– Excelente, excelente…

Memórias de juke – 24/4/2009

Na juke, a cada três ou quatro minutos, renovava-se o naipe de metais à la mariachi. Depois meu resto de consciência retornava pra mesa, pro copo, pro cinzeiro, até pro assunto. Não dá pra ficar atento o tempo todo com a cornucópia (trocadilho acidental) de música sertaneja. Minha genética metropolitana e cabeçóide tampouco durava em escrutinar o tanto de “cultura popular” – e exótica pra mim – que me entrava pelos ouvidos. Tentei falar que-porra-de-raíz-que-nada! Isso é mariacchi. O que não for, é pop-lixo-latino. As caras de paisagem que vi, que me viam, trouxeram minha atenção pro copo de novo. Bebo rápido demais nessas ágapes. Difícil, não vai dar pra ver o sol nascer. A diferença é que por aqui é chapéu de caubói, na América espanhola é visual de metaleiro-de-banho-tomado. Eu devia comer algo, tomar água. Cruel é estar nesse boteco sórdido, que tudo respira sórdido, e nada do sórdido legal. Um maluco engraçado, umas desclassificadas, uma outra juke totalmente, sinuca de ficha. Tipo sordidez antisséptica, aqui. Talvez aquela coxinha velha da vitrine, a batalha das benesses da farinha no estômago com o biohazard da fritura velha. “Quer saber?” – ninguém fez cara de quero-saber – “tô fora da reforma ortográfica e vou hifenizar até a puta-que-os-pariu”. Acho que tá cedo pra soltar palavrão, de mãe e tal, mesmo que a puta-que-os-pariu esteja esvaziada de sentido. Se quiser ofender alguém, chama de “bobão”, Aí, bobão! Desconcerta um sujeito, parte pra ignorância ou responde bobão-é-seu-nariz? Não sou muito íntimo. Se eu mudar pra 51, vou ter que rachar a conta igual? Tô curto, podia pegar um táxi pra vazar. Tipo agora. Aparentemente, alguém gastou o salário no diabo da juke, deve ser aquele indivíduo estacionado que nem um dois-de-paus em frente à máquina dos infernos. Tem som que a gente ouve que tinha que ser inconfessável, ouvir trancado. Credo, coxinha nojenta (tem aquela pimentinha, amigo?). Hoje meus dias são de tristeza e solidão, trago em minh’alma uma profunda conformação; renunciei meu grande amor, um dia, até que é massa essa música. Preciso ir embora. Estamos todos olhando pra melhor bunda-solteira do recinto e comentando e tal, que a gente gosta muito e tal, o que que a gente fazia se pegasse e tal. Deixa eu ver quem parece mais travado que eu. Minha carona, virgem-santa, olhos-bóia. O salgado deu uma aliviada, mas tem gente saindo, deixando bolinhos de dinheiro embaixo do saleiro. Isso às vezes é bom, às vezes é péssimo. Não toque em mim! Hoje descobri que você não é nada, essa até eu conheço, lá-lá-iá, fazer amor pra te ferir lá-iá-lá-iá, não-sei-que-mais, preciso vazar. O problema dessa música – traz mais uma, velho – é…está na indústria cultural, nós somos o produto, meu chapa, e somos nós mesmo que tragamos…que pagamos, tá ligado? Putz, tem aquela voz dentro de mim dizendo que eu parei de fazer sentido, se já não estava antes, você-não-é-daqui-né? Não. Preciso vazar.