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Refeição

Um peixe jazendo dourado numa travessa brilhante

Vai sendo velado aos nacos

em gomos de carne

Vai sendo velado aos nacos

em dentes protéticos

Em histerias protéicas

 

Agora, o assado é passado

A nudez testemunhal de um animal

É sua espinha limpa numa travessa opaca

Cia. das Coisas Inanimadas

A companhia das coisas inanimadas

Eu, desanimado tentando animar objetos

Abjeto, sem objetivo querendo vivificar

Ânima; suspiro atrás de suspiro buscando expirar

 

Rapidamente, por vezes devagar e quando quase parando

Desânima, inerte como algum objeto inerte posto de lado

Esperar sem poder, reanimar, criar

Pirar, silenciosamente.

Ignora o passarinho – 31/3/2009

Às vésperas de um casamento de amigos, já estou preparado: velho terno desbotado ou coisa assim, mais botões que um dia das mães e tome gravata – esse flagelo colorido. E dá-lhe fotografia.

Existe um contra-senso na tomada de fotografias. No tempo do daguerreótipo, tudo bem: uma tomada podia levar até trinta minutos pra impregnar uma placa de vidro mijada. Mas a fotografia só virou fotografia quando conseguiu nos mostrar uma espécie de microscópio de tempo. Disparos de milésimos de segundo mostravam momentos decisivos dentro do mundo que nossa visão contínua via mas não enxergava.

Não sei se tem a ver com a ditadura da beleza ou da alegria, mas as fotos que vão roubar mais alguns pedaços da minha alma neste sábado estão coreografadas de antemão: as cabecinhas inclinadinhas direcionadas a um ponto de fuga engessado, fingindo a alegria que deveras sentimos, tudo pra acabar numa pilha de bits, tão igual a tudo, que escorrega da nossa memória pra uma memória magnética da qual ninguém lembra.

Bora ignorar o passarinho, nunca mais falar xis, vamos ver o que o milésimo esconde de nós, vamos velar e revelar nossas próprias personas. Mil grãos de arroz suspensos, cada um mirando pra onde queria, fazendo sua própria foto na memória, enquanto o profissional clica tudo sem juízo, só beleza.

Mídias sociais

Pode-se até inferir uma naturalidade na gloriosa ciência do marketing, ver que as novidades em matéria de promoção cruzam fronteiras sem o menor problema. Quem bolou a primeira notinha xerocada no estilo “senhoras e senhores estamos aqui”? E quanto tempo levou pra “virar viral”?

A nota abaixo recebi em uma Montevidéu decadente, cheia de meninos de calle:bilhete.jpg

A seguinte recebi de um amigo guardador de carros, um libelo pela evolução do transporte público. Um tanto de polissemia pra quem gosta:
amigo-2real.jpg

Alguém usou o PageMaker – quem sabe – fez o layout, meteu na gráfica, teve guilhotina e aquela colinha vermelha de fazer bloquinho, tudo pra conseguir um amigo, uma espécie de “me add aê, senão…”. Mas eu estava sem trocado.