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Tudo.

Te aquieta, aquieta

Não queira me ter

Só queira me ter agora

no tempo parado.

Esquece a excitação histérica

Ignora toda escola

Enquanto caminha no quarto

e sente o ar parado bater nas carnes

mais brancas, menos

afeitas aos tatos.

Começa a pousar teus ossos

Nas cobertas, nas mobílias, nos tapetes

Com o tempo, tudo some,

Tudo soma e acontece.

Ignora e sente meus dentes,

Larga a voz.

Entende a dor, sonda

Já estamos dissolvendo

Aperta o corpo querendo

meu espaço; estou aonde você está.

Todas as vísceras são agora,

cabelos, dedos, líquidos.

Quem podia imaginar

o mundo sem chão?

Tudo.

Danação!…

Danação! Desespero! Gritos!

Gritos não se ouvem, movem-se no ar num grande silêncio preto.

Crivam os gritos corvos as tábuas de salvação e as tábulas rasas, bem

como as covas arrazoadas dos envelopes de vida.

Quem gritou não ouviu; quem desesperou, esperava.

Um pedaço de nada é uma fé sem fiel, e contém um problema seu que não

sabe ouvir.

Feliz o surdo, o que não está, o que se compara a nada, o que chega sem

saber que partiu.

Grita quem não consegue se matar com um silêncio na cabeça.

A gravidade das poucas badaladas

A gravidade das poucas badaladas

A gravidez da madrugada

As pálpebras abertas empurram o olho pro fundo

E a alma queria repousar do mundo

 

A mente, quente, crepita descobertas

Deduções, desbrava trilhas que encontra abertas

O corpo tenso de fadiga, extenuado

Revolve-se vivo num caixão fechado

 

Em poucos minutos, mais uma noite em claro

Ferido pela friagem, pela claridade

ergo-me, rastejo, paro

 

Olho a janela e reaparece a cidade

Todas as pessoas e cores renasceram num piscar

Quando vejo isso tudo, tenho sono e vontade de sonhar

Personalidade 37 – 15/4/2009

A minha personalidade 37 apareceu. A burra, depois de já algum tempo. Fiquei bem feliz, sentimos falta dela. Amplificada pela gripe, com a qual lida muito melhor que a personalidade, digamos, 41 – toda cheia de fidalguia. A 37, de uma maneira totalmente diversa, aproveita a congestão, aquele encapamento dos sentidos pra florescer em sua estupidez beirando o nirvana. Criatura essencialmente falida, promete e deseja que se apruma, basta que fique tempo suficiente pra o prumo beijar-lhe as bochechas como a futura esposa. Mas, por enquanto, diverte-se com o que a vida tem de mais simples, televisão – a insônia é bem vinda pela personalidade 37, o sofá velho, a temperatura, qualquer que seja, tudo é bem-aventurança.

Já mencionei que a personalidade 37 é a burra? Ela não carrega os pecados do mundo nas costas, o que nos tem facilitado muito o transpassar a tarde. Fácil ouvir rádio sem escolher estação, um pão com manteiga, alegria, alegria, pura matemática de arriscar um total e levar fama de quem faz conta de cabeça. E as verificações ficam por conta dos outros e das outras personalidades.

Olhar fotografias delas e deixar levar, cada vez mais boçal, cada vez mais afeito ao contentamento.