Monthly Archives: September 2010

A problemática dos textos apócrifos

“E, após a queda abissal, Lúcifer atinge o solo terreno, e dali nasce um pé de pequi”

Friedrich Wonton Nietzsche (Die Schutlzen Tangram, circa 1834)

O dicionário define “apócrifo” como algo essencialmente verdadeiro (do aramaico vulgar antigo “apoys”, essência). Ainda assim, muitos se perguntam: qual seria a medida da apocrifidade intrínseca de um dito atribuído a algo ou alguém, ou ainda, citando o grande filólogo romano Rimsky-Korsakov: quidnam fatigo, me?

Os textos apócrifos fluem pela Internet e pelo inconsciente coletivo das pessoas na velocidade da luz, ou seja: 300 bilhões de quilômetros por segundo (Jungle, 1912). Isto seria aceitável sob um ponto de vista pragmático, à la Charlie B. Pierce, mas o conundrum começa justamente a partir do momento em que um indivíduo reducionista-analítico de orientação marxista toma posição contrária.

Todos sabem que, desde que Dan Brown criou a série Fibonachi (x=x+3), o conflito entre os cânones católicos e as correntes pagãs modelou a cara da (então tomada pela barbárie) Europa Setentrional. Consultando o Codex Confabulus e opondo-o ao Protocolo dos Sábios do Ceilão, tal paradoxo fica patente.

Então, quais os rumos a tomar? Como ter respaldo em nossas mensagens para que elas encontrem seu destino último, a glória online? Jorge José Borges (1805-1980), inimigo famoso dos labirintos especulares e principal idealizador da Anternet, a rede sino-americana de computadores, já dizia: “O Homem é a medida de uma boa parte das coisas”. Por conseguinte, todos juntos e cada um de nós temos um papel importante na constituição de fato do condomínio global propalado por McNamara.

E, sem mais delongas, deixo vocês com a eloquência de Al Jolson, o homem, o mito:

“Ninguém retorna de boa vontade ao local que lhe fez algum mal”

Langston Hughes – Life Is Fine, tradução – 23/3/2009

A vida é massa

Parei na beira do rio
E me sentei no barranco.
Tentei pensar mas não pude,
Então pulei e afundei.

À tona uma vez e gritei!
E mais uma vez e berrei!
Não fosse a água tão fria
podia afundar pra morrer.

Mas estava    Frio na água!    Estava fria!


Subi no elevador
Dezesseis andares pro alto.
Pensei na minha menina
E pensei que ia dar o salto.

Parei lá e gritei!
Parei lá e berrei!
Não fosse tudo tão alto
Podia pular pra morrer.

Mas estava    Alto lá no alto!    Estava alto!

Já que estou aqui vivo,
Acho que sigo vivendo
Podia ter morrido de amor –
Mas eu nasci pra viver

Pode até me ouvir gritar,
E pode até me ver berrar –
Mas eu vivo em teimosia, garota,
Você não vai me ver morrer.

A vida é massa!    Como o vinho!    A vida é massa!

Langston Hughes – Life Is Fine (original aqui)

E vamos nós em prece – 9/3/2009

Escrevendo de penetras em um mundo já tão repleto de letras mais ou menos organizadas. Agora vemos com surpresa que até da direita pra esquerda se escreve – e nesses textos que para nós são criptográficos só de existirem, podem estar as mensagens mais importantes.

Carpideiras às avessas de um muro, que não foi mero empilhamento de pedras, mas cada pedra que caía foi uma pedra posta sobre cada uma das questões que pareciam resolvidas, e deixaram de ser.

Foi sempre tão fácil dizer: quem não é meu amigo é meu inimigo, e que os amigos estejam próximos, e que os inimigos estejam mais próximos. Mas sem saber quem é quem, qual é o bem real que alguém nos faz, os camaradas e descamaradas se aglutinaram tão próximos à nossa volta, que todos estão a pisar nossos pés e a dividir nosso ar.

E olhamos desconfiados dos quaresmeiros, que quem se esquiva de um suposto canibalismo com tanto fervor, há de ter em si um quê de divindade.

Medo de que dê tempo de dizer tudo, ainda que sóis invisíveis vão aparecendo sobre nossas cabeças (protetor sessenta, setenta, mil?), e quedemos mudos sem gostar.

Sigamos definindo tudo aquilo que nos surpreende e confunde como o avesso do avesso, pensando ter ludibriado a morte, essa única coisa a ludibriar, essa única coisa que não dá para tratar com ludíbrio. Quando estivermos desenganados, estaremos livres do engano?

*Vou publicar aqui o que publiquei por algumas semanas no extinto “cultblog” (e redivivo “página cultural“), pra efeito de arquivo e nuvem e vontade. E pra desenferrujar as engrenagens do wordpress.

É possível votar com consciência?

Mais uma do departamento de niilismo.

A cada dois anos, a ladainha é a mesma. Se entre os candidatos até que há um revezamento entre dinossauros e noviços, a parte do eleitorado que opina por aí é muito menos mutável.

O que justificaria uma consistência ideológica – vá lá, “sou socialista”, “sou trabalhista”, “sou social-democrata”, “sou liberal” – dentro do espectro político brasileiro, esquece. Partidos são mobiliário de aluguel, um pregão em que os valores são o tempo de TV e o peso relativo de cada voto na legenda-quimera. Nada de novo por aí.

Um cara de princípios que ultrapassem o hoje-em-dia não vota em ninguém. Não poderia. Mas a danada é a arte do possível, não é? Do outro lado da tabela, quem diz que político é tudo igual tem a obrigação de anular o voto, mas nunca. A gente conhece a trama, fazer figa pra todo homem público, à torto e à direito, é um salvo-conduto imaginário contra a otarização que sofremos e sofreremos no próximo exercício.

Escolher por eliminação – estratégia tão jóia quanto as outras – pode mascarar dramas de consciência, mas não funciona como redutor de responsabilidade.

Escolher um perdedor certo pode valer um título de fera romântica do ano no botequim, só que, no mais das vezes, é simplesmente um voto afetado e covarde. Covardia que apareceria se o referido candidato corresse algum risco de vencer a peleja.

Há que escolher, e queremos pensar que votamos com consciência. Mas eu me pergunto, dado que vou votar enfim em um deles:

Que aberração sanguinária, desumana e estupefaciente essa pessoa ou organização teria que cometer pra que eu retirasse meu voto dela?