Monthly Archives: September 2010

Auge, Maria! – 6/5/2009

O contrário do não confunda é o não contunda, uma letra fazendo toda a diferença entre fazer alguma diferença e não fazer nada. A platitude na moldura onde deveria morar a latitude. Quem sabe umas letras poucas, que se embaralham, o confronto transforma-se em conforto. Ou uma palavra inteira: a velha zona vira a zona de – adivinhe – conforto. Entre a fusão e a fissão, quanta energia e destruição, cada uma nos seus termos, cada uma com seus asseclas, seus ídolos e idólatras.

As rimas também vem jogar: quando alguém vai descartar – enquanto par – amor e dor, paixão e caminhão – ou qualquer coisa muito grande, como se o apaixonar-se fosse pequeno? Confuso, confundido…Você tem estado mudo, mas seu estado é bem esse, não está mudado.

Continuando, pra dizer o afinal, a mulata é a tao, seus píncaros encerram o reinício do contrário. Auge, Maria!

Memórias de juke – 24/4/2009

Na juke, a cada três ou quatro minutos, renovava-se o naipe de metais à la mariachi. Depois meu resto de consciência retornava pra mesa, pro copo, pro cinzeiro, até pro assunto. Não dá pra ficar atento o tempo todo com a cornucópia (trocadilho acidental) de música sertaneja. Minha genética metropolitana e cabeçóide tampouco durava em escrutinar o tanto de “cultura popular” – e exótica pra mim – que me entrava pelos ouvidos. Tentei falar que-porra-de-raíz-que-nada! Isso é mariacchi. O que não for, é pop-lixo-latino. As caras de paisagem que vi, que me viam, trouxeram minha atenção pro copo de novo. Bebo rápido demais nessas ágapes. Difícil, não vai dar pra ver o sol nascer. A diferença é que por aqui é chapéu de caubói, na América espanhola é visual de metaleiro-de-banho-tomado. Eu devia comer algo, tomar água. Cruel é estar nesse boteco sórdido, que tudo respira sórdido, e nada do sórdido legal. Um maluco engraçado, umas desclassificadas, uma outra juke totalmente, sinuca de ficha. Tipo sordidez antisséptica, aqui. Talvez aquela coxinha velha da vitrine, a batalha das benesses da farinha no estômago com o biohazard da fritura velha. “Quer saber?” – ninguém fez cara de quero-saber – “tô fora da reforma ortográfica e vou hifenizar até a puta-que-os-pariu”. Acho que tá cedo pra soltar palavrão, de mãe e tal, mesmo que a puta-que-os-pariu esteja esvaziada de sentido. Se quiser ofender alguém, chama de “bobão”, Aí, bobão! Desconcerta um sujeito, parte pra ignorância ou responde bobão-é-seu-nariz? Não sou muito íntimo. Se eu mudar pra 51, vou ter que rachar a conta igual? Tô curto, podia pegar um táxi pra vazar. Tipo agora. Aparentemente, alguém gastou o salário no diabo da juke, deve ser aquele indivíduo estacionado que nem um dois-de-paus em frente à máquina dos infernos. Tem som que a gente ouve que tinha que ser inconfessável, ouvir trancado. Credo, coxinha nojenta (tem aquela pimentinha, amigo?). Hoje meus dias são de tristeza e solidão, trago em minh’alma uma profunda conformação; renunciei meu grande amor, um dia, até que é massa essa música. Preciso ir embora. Estamos todos olhando pra melhor bunda-solteira do recinto e comentando e tal, que a gente gosta muito e tal, o que que a gente fazia se pegasse e tal. Deixa eu ver quem parece mais travado que eu. Minha carona, virgem-santa, olhos-bóia. O salgado deu uma aliviada, mas tem gente saindo, deixando bolinhos de dinheiro embaixo do saleiro. Isso às vezes é bom, às vezes é péssimo. Não toque em mim! Hoje descobri que você não é nada, essa até eu conheço, lá-lá-iá, fazer amor pra te ferir lá-iá-lá-iá, não-sei-que-mais, preciso vazar. O problema dessa música – traz mais uma, velho – é…está na indústria cultural, nós somos o produto, meu chapa, e somos nós mesmo que tragamos…que pagamos, tá ligado? Putz, tem aquela voz dentro de mim dizendo que eu parei de fazer sentido, se já não estava antes, você-não-é-daqui-né? Não. Preciso vazar.

Personalidade 37 – 15/4/2009

A minha personalidade 37 apareceu. A burra, depois de já algum tempo. Fiquei bem feliz, sentimos falta dela. Amplificada pela gripe, com a qual lida muito melhor que a personalidade, digamos, 41 – toda cheia de fidalguia. A 37, de uma maneira totalmente diversa, aproveita a congestão, aquele encapamento dos sentidos pra florescer em sua estupidez beirando o nirvana. Criatura essencialmente falida, promete e deseja que se apruma, basta que fique tempo suficiente pra o prumo beijar-lhe as bochechas como a futura esposa. Mas, por enquanto, diverte-se com o que a vida tem de mais simples, televisão – a insônia é bem vinda pela personalidade 37, o sofá velho, a temperatura, qualquer que seja, tudo é bem-aventurança.

Já mencionei que a personalidade 37 é a burra? Ela não carrega os pecados do mundo nas costas, o que nos tem facilitado muito o transpassar a tarde. Fácil ouvir rádio sem escolher estação, um pão com manteiga, alegria, alegria, pura matemática de arriscar um total e levar fama de quem faz conta de cabeça. E as verificações ficam por conta dos outros e das outras personalidades.

Olhar fotografias delas e deixar levar, cada vez mais boçal, cada vez mais afeito ao contentamento.

Ignora o passarinho – 31/3/2009

Às vésperas de um casamento de amigos, já estou preparado: velho terno desbotado ou coisa assim, mais botões que um dia das mães e tome gravata – esse flagelo colorido. E dá-lhe fotografia.

Existe um contra-senso na tomada de fotografias. No tempo do daguerreótipo, tudo bem: uma tomada podia levar até trinta minutos pra impregnar uma placa de vidro mijada. Mas a fotografia só virou fotografia quando conseguiu nos mostrar uma espécie de microscópio de tempo. Disparos de milésimos de segundo mostravam momentos decisivos dentro do mundo que nossa visão contínua via mas não enxergava.

Não sei se tem a ver com a ditadura da beleza ou da alegria, mas as fotos que vão roubar mais alguns pedaços da minha alma neste sábado estão coreografadas de antemão: as cabecinhas inclinadinhas direcionadas a um ponto de fuga engessado, fingindo a alegria que deveras sentimos, tudo pra acabar numa pilha de bits, tão igual a tudo, que escorrega da nossa memória pra uma memória magnética da qual ninguém lembra.

Bora ignorar o passarinho, nunca mais falar xis, vamos ver o que o milésimo esconde de nós, vamos velar e revelar nossas próprias personas. Mil grãos de arroz suspensos, cada um mirando pra onde queria, fazendo sua própria foto na memória, enquanto o profissional clica tudo sem juízo, só beleza.