Me encontro entre os quatro trilhos…

Me encontro entre os quatro trilhos

Como filhos separados ao nascer

Correm para encontrar o infinito

Mas só vão e vêm, porque trem.

 

Alargo os passos pra pisar dormentes

E posso estar fugindo

Faz um sol parado dos diabos

Cascalho pra todos os lados

 

Só cacos na bagagem

Alguns colados pelo caos, como retalhos

Outros sós, cacos cortantes

Pó de tudo, pó de nada

 

Sempre ao ser esquartejado

Pelo aço e pelo diesel que se enroscam

Fico contemplando daqui a idéia

De descarrilar numa tangente

Refeição

Um peixe jazendo dourado numa travessa brilhante

Vai sendo velado aos nacos

em gomos de carne

Vai sendo velado aos nacos

em dentes protéticos

Em histerias protéicas

 

Agora, o assado é passado

A nudez testemunhal de um animal

É sua espinha limpa numa travessa opaca

Dois gatos

O gato que vira lixo

E o gato na almofada

São gatos os dois

Nunca

Um é gato na almofada

O outro é gato depois

 

Um é gato de dia

Nos pelos e nas preguiças

O outro vira lixo

Nas unhas e nas malícias

 

Um é gato de noite

E briga contra um Deus pardo

O outro na almofada

Ludibriando um Deus dono

Tudo.

Te aquieta, aquieta

Não queira me ter

Só queira me ter agora

no tempo parado.

Esquece a excitação histérica

Ignora toda escola

Enquanto caminha no quarto

e sente o ar parado bater nas carnes

mais brancas, menos

afeitas aos tatos.

Começa a pousar teus ossos

Nas cobertas, nas mobílias, nos tapetes

Com o tempo, tudo some,

Tudo soma e acontece.

Ignora e sente meus dentes,

Larga a voz.

Entende a dor, sonda

Já estamos dissolvendo

Aperta o corpo querendo

meu espaço; estou aonde você está.

Todas as vísceras são agora,

cabelos, dedos, líquidos.

Quem podia imaginar

o mundo sem chão?

Tudo.

Menina na bomboniére

A menina vê cores, não sabe qual quer

Em frente às prateleiras, seus olhos penduram

Naqui e ali, a vidraria e os doces

Um homem espera e não pode

por uma menina cada decisão mais adulta

Ela vê formas, a ânsia excita

O homem busca constranger, e a menina só fita

São seus olhos os doces, coloridos e cheios de formas

E outros fregueses querem salgados

Mas ela aperta seu gosto e nada decide

E sabe, a grande impaciência

é ela quem passa

e balança o corpinho pra todo lado

Querendo um caminho. Um se retira

Eu quero aquele. Rápido.

E come pensando nos outros.