Onde estão meus pés…

Onde estão meus pés; onde estão meus sapatos

Estejam meus pés na estrada, meus olhos colam

Nas árvores fisionômicas

Escalem meus pés as árvores, meus olhos

cismando no fim dos caminhos

 

Meus sapatos são minha casa, me emprestam a vida

Meus olhos me dão sonho, me dão morte

Curam vida

Meus pés sentem dores levando minha vida a ver as cores

Deixo que clamem e perfumem: não reclamo

Mas o que se forma em meus olhos nada turva

Olhos correm como os pés não vêem a hora

De estarmos

eu,

olhos, e

pés, e

sapatos

num mesmo lugar, mesmo momento

Cia. das Coisas Inanimadas

A companhia das coisas inanimadas

Eu, desanimado tentando animar objetos

Abjeto, sem objetivo querendo vivificar

Ânima; suspiro atrás de suspiro buscando expirar

 

Rapidamente, por vezes devagar e quando quase parando

Desânima, inerte como algum objeto inerte posto de lado

Esperar sem poder, reanimar, criar

Pirar, silenciosamente.

Danação!…

Danação! Desespero! Gritos!

Gritos não se ouvem, movem-se no ar num grande silêncio preto.

Crivam os gritos corvos as tábuas de salvação e as tábulas rasas, bem

como as covas arrazoadas dos envelopes de vida.

Quem gritou não ouviu; quem desesperou, esperava.

Um pedaço de nada é uma fé sem fiel, e contém um problema seu que não

sabe ouvir.

Feliz o surdo, o que não está, o que se compara a nada, o que chega sem

saber que partiu.

Grita quem não consegue se matar com um silêncio na cabeça.

Que sumam…

Que sumam as beldades venturosas

Não quero as mães de meus filhos aeróbicos

Nem o enfeite de um homem impávido

Mas tu? tu partires?

A alma gêmea do trapo esquálido

A metade de uma jura de amor no sofrimento

Sofro que sofro por aí; sofro que sofro sozinho.

Ainda vago pelo nosso caminho e vejo teu sangue no cercado

No farpado da lembrança

da agonia feliz de sofrer junto, muito.