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Dois gatos

O gato que vira lixo

E o gato na almofada

São gatos os dois

Nunca

Um é gato na almofada

O outro é gato depois

 

Um é gato de dia

Nos pelos e nas preguiças

O outro vira lixo

Nas unhas e nas malícias

 

Um é gato de noite

E briga contra um Deus pardo

O outro na almofada

Ludibriando um Deus dono

Tudo.

Te aquieta, aquieta

Não queira me ter

Só queira me ter agora

no tempo parado.

Esquece a excitação histérica

Ignora toda escola

Enquanto caminha no quarto

e sente o ar parado bater nas carnes

mais brancas, menos

afeitas aos tatos.

Começa a pousar teus ossos

Nas cobertas, nas mobílias, nos tapetes

Com o tempo, tudo some,

Tudo soma e acontece.

Ignora e sente meus dentes,

Larga a voz.

Entende a dor, sonda

Já estamos dissolvendo

Aperta o corpo querendo

meu espaço; estou aonde você está.

Todas as vísceras são agora,

cabelos, dedos, líquidos.

Quem podia imaginar

o mundo sem chão?

Tudo.

Menina na bomboniére

A menina vê cores, não sabe qual quer

Em frente às prateleiras, seus olhos penduram

Naqui e ali, a vidraria e os doces

Um homem espera e não pode

por uma menina cada decisão mais adulta

Ela vê formas, a ânsia excita

O homem busca constranger, e a menina só fita

São seus olhos os doces, coloridos e cheios de formas

E outros fregueses querem salgados

Mas ela aperta seu gosto e nada decide

E sabe, a grande impaciência

é ela quem passa

e balança o corpinho pra todo lado

Querendo um caminho. Um se retira

Eu quero aquele. Rápido.

E come pensando nos outros.

Onde estão meus pés…

Onde estão meus pés; onde estão meus sapatos

Estejam meus pés na estrada, meus olhos colam

Nas árvores fisionômicas

Escalem meus pés as árvores, meus olhos

cismando no fim dos caminhos

 

Meus sapatos são minha casa, me emprestam a vida

Meus olhos me dão sonho, me dão morte

Curam vida

Meus pés sentem dores levando minha vida a ver as cores

Deixo que clamem e perfumem: não reclamo

Mas o que se forma em meus olhos nada turva

Olhos correm como os pés não vêem a hora

De estarmos

eu,

olhos, e

pés, e

sapatos

num mesmo lugar, mesmo momento

Cia. das Coisas Inanimadas

A companhia das coisas inanimadas

Eu, desanimado tentando animar objetos

Abjeto, sem objetivo querendo vivificar

Ânima; suspiro atrás de suspiro buscando expirar

 

Rapidamente, por vezes devagar e quando quase parando

Desânima, inerte como algum objeto inerte posto de lado

Esperar sem poder, reanimar, criar

Pirar, silenciosamente.