Monthly Archives: August 2006

O Forasteiro

Uma paráfrase de Jorge Luis Borges

A presença falseada em ícones,

segue parado;

se refletisse, descobriria uma nova dimensão da desimportância

e pensa no mar ou na metrópole,

mais vivos para ele que este arraial

complexo de passado, não de idéias,

aonde o leva a prostração de um homem

cujas dívidas verdadeiras estão longe.

Numa casa fervente

se barbeará depois diante de um espelho

que não permanecerá inteiro

e lhe parecerá que este rosto

é mais digno de confiança e de piedade

que a alma que o habita

e que o pó vermelho e cinza lavra.

Cruzará contigo numa rua

E talvez notes que é alto e encurvado

E que parece um cego ao mirar cismando.

Ninguém

lhe ofertará coisa alguma

entrada alguma. O homem

previne a memória de tudo o que encontra, mas maldito,

anos depois, quem sabe onde,

o cheiro, o comum.

Essa noite, seus olhos marejados,

num difusor das formas solitárias,

a falsa tradição e sua incrível longevidade,

porque o sertão abarca o planeta

e se espelha nos sonhos dos homens

que nunca nele pisaram.

Na assustadora penumbra, o derrotado

se julgará no que seja uma cidade

e o surpreenderá encontrar algo aquém,

de outra linguagem, que o céu condena.

Antes da agonia,

o inferno e o engano nos foram dados;

perambulam agora por estas paragens, podres,

que para o forasteiro do sonho do outro

(o forasteiro que fui sob outros signos menores)

é uma série de imagens exatas

talhadas para o olvido.

Internet, cadê a revolução?

A palavra gasta lança uma névoa sobre a Internet latente

Cada revolução foi antes um pensamento na mente de um homem – Ralph Waldo Emerson

A Internet é frequentemente chamada de revolucionária, assim como a nova marca de sabão em pó, o novo modelo de automóvel e o novo absorvente íntimo; todos são talhados a mudar a sua vida e existe demanda para isso.

Na análise dos números de uso da Internet, é fácil ver suas curvas de crescimento, o aumento de sua penetração e de horas em frente ao computador, mas popularização não é suficiente para tornar algo revolucionário. Avaliando-se os hábitos de navegação, percebe-se que cada internauta navega por um grupo pequeno de websites diariamente e cada vez mais tempo.

Talvez o hábito seja herdado do enraizado consumo televisivo, assemelha-se a ele; mesmo com o zapping, orbitamos entre poucos canais, notadamente os velhos canais abertos. Por reflexo, carregamos o hábito para a nova mídia, o que resulta na grande audiência dos maiores portais, muitas vezes versões compactas de um jornal impresso ou canal de televisão. Não raro esses grandes websites recebem papel subalterno, de promoção, suporte e complementação; remetem ao impresso, ao programa de TV.”A característica diferencial da Internet não está no hyperlink, que pode ser comparado ao zapping da tevê”

A característica diferencial da Internet não está no hyperlink, que pode ser comparado ao zapping da tevê; não está no modo de leitura recortado, que pode ser comparado à pirâmide de informação de um jornal; não está no caráter instantâneo da informação, a TV com sua hegemonia e com os satélites varando a Terra ainda é o meio preferencial para a disseminação rápida dos acontecimentos pelo mundo afora; não está na multimídia, a anterior popularização dos computadores pessoais já trouxera essa prerrogativa. A convergência prevista para a rede também não será protagonista da transformação. Mas é inegável que a nova mídia tem caráter revolucionário. E a revolução mora na produção.

Nenhum outro meio de comunicação facilita de tal maneira a produção e veiculação de conteúdo original como a Internet, colocando potencialmente em pé de igualdade desde uma grande empresa de comunicações até o indivíduo, antes mero consumidor final. Do ponto de vista técnico há a ausência da necessidade de técnica. É mais fácil colocar no ar um website que explore todas as possibilidades do meio do que mimeografar um pasquim (mesmo com a saudade do cheiro de álcool). No ponto de vista da publicidade, da audiência, vem à cena um fator que também deriva do novo modo de produção, o elemento comunitário. Há uma relação de “muitos para muitos” no feitio e na distribuição de conteúdo, no lugar de uma relação anterior de “um para muitos”. É assim que, por um lado, não existem restrições de pauta considerando a totalidade da rede, e toda mensagem é a quem interessar possa. A grande rede então vive seu destino ao limite, ao possibilitar a geração de sub-redes, comunidades não necessariamente regradas por territórios físicos, mas por sintonias políticas e ideológicas.

O movimento será mais lento do que se pode esperar de uma “revolução” e pode mesmo passar desapercebido pelo tempo afora. Enquanto milhares de pessoas só aguardam a propalada inclusão digital, outros tantos aguardam a inclusão na renda mínima, sob o auspício de um Estado qualquer. Enquanto tantos começam a produzir para a web, ainda não necessariamente publicando, mas exercendo escolha e formando suas redes pessoais, outros ainda navegam de maneira inercial nos conteúdos que cheiram a tradição.

Autostitch

Criar fotos panorâmicas; mais fácil, impossível (com versão demo grátis).

Vem dos Laboratórios de Inteligência Computacional da Universidade de British Columbia, um grande pequeno notável: Autostitch. Este software com menos de 700k, possui um algoritmo poderoso para emendar fotos em sequência. O download da versão demo é gratuito (arquivo zip – link abaixo). panorama

É bom preparar antes a sua série de fotos (por volta de 50 é uma boa quantidade, segundo o site do programa). Coloque todas em uma nova pasta, para facilitar.

Após descomprimir o arquivo zip, basta executar o autostitch.exe, abrir a pasta onde estão suas fotos , selecionar todas e aguardar alguns minutos. A foto resultante abre-se automaticamente no seu visualizador padrão.

O programa está em inglês, mas você não deve precisar ler nada, embora haja um menu de “sintonia fina” dos elementos da emenda, para os mais profundos.

A imagem deste quintal é meu primeiro teste com o programa. Impressiona esperar uns 4 minutos pra renderizar e ver o resultado final. A outra imagem foi feita há uns 10 anos, uma seqüência de três fotos analógicas feitas às portas do Vale do Pati, Chapada Diamantina – BA, aquela beleza toda. Vale do Pati

Na Internet muita coisa interessante pode ser achada em fotografia panorâmica, como “The World Wide Panorama Map”, um mapa interativo com panoramas pelo mundo todo. Em panoramas.dk, um vasto acervo de fotografias em 360 graus, com destaques para torre Eiffel, monte Everest, a Lua (!) e a Times Square(NY). Nestes últimos, é necessário o software Quicktime para visualização.

Links:

– Autostitch . Abrir em nova janela Autostitch . Conte�do em l�ngua estrangeira

– The World Wide Panorama Map . Abrir em nova janela  The World Wide Panorama Map . Conte�do em l�ngua estrangeira

– panoramas.dk . Abrir em nova janela  panoramas.dk . Conte�do em l�ngua estrangeira

Cenas de muitas vidas

Toda semana um fotógrafo e uma parte do mundo

A Internet é repleta de boas idéias, não importa a grandiosidade. O site “scenefrommylife” é daqueles que, em uma proposta simples, traduz muito das possibilidades da rede.

Lançado em Junho de 2002, com mais de um milhão de visitantes até agora, possui uma única diretriz: um fotógrafo publica uma foto por dia, durante sete dias. O tema é livre, a única regra é publicar uma foto tirada nas últimas 24 horas. Ao fim da semana, um novo fotógrafo assume a tarefa.”capturar o cotidiano de alguém e dar atenção ao espaço em que se vive”

O propósito do website é desenvolver um extenso leque de fotos de um grande número de lugares com uma coleção eclética de fotógrafos, que não precisam ser profissionais. De fato, a instrução dada aos fotógrafos é para priorizar o lado documental, capturar o cotidiano de alguém e dar atenção ao espaço em que se vive.

De primeiro a sete de agosto, participei do projeto, com fotos de Uberlândia – MG, sendo o terceiro brasileiro a fazê-lo. A semana anterior contou com um norte-americano da Flórida e a seguinte à minha, fotos de São Petersburgo – Rússia. Dá para ter uma idéia.screenshot do site scenefrommylife

Em Uberlândia, ao sair pela primeira vez de máquina em punho, ainda trancando o portão tive que sair correndo pra pegar a primeira foto: uma dezena de bois passando em frente à minha casa. Segui a cena até conseguir um quadro dos animais e do peão contra a linha de prédios ao longe. Talvez tenha sido a foto mais definitiva do conjunto; queria mostrar os contrastes do interior brasileiro, fugindo do que imagino ser a idéia mais cristalizada que se tem do Brasil pelo mundo afora.

Os arquivos permanecem lá, desde o primeiro conjunto; o site recebe 25.000 visitas por dia e aguarda a sua inscrição.

É um exemplo de algo que só poderia florescer na Internet, reunindo documentação, fotografia e criação comunitária.