Tag Archives: fotografia

Ignora o passarinho – 31/3/2009

Às vésperas de um casamento de amigos, já estou preparado: velho terno desbotado ou coisa assim, mais botões que um dia das mães e tome gravata – esse flagelo colorido. E dá-lhe fotografia.

Existe um contra-senso na tomada de fotografias. No tempo do daguerreótipo, tudo bem: uma tomada podia levar até trinta minutos pra impregnar uma placa de vidro mijada. Mas a fotografia só virou fotografia quando conseguiu nos mostrar uma espécie de microscópio de tempo. Disparos de milésimos de segundo mostravam momentos decisivos dentro do mundo que nossa visão contínua via mas não enxergava.

Não sei se tem a ver com a ditadura da beleza ou da alegria, mas as fotos que vão roubar mais alguns pedaços da minha alma neste sábado estão coreografadas de antemão: as cabecinhas inclinadinhas direcionadas a um ponto de fuga engessado, fingindo a alegria que deveras sentimos, tudo pra acabar numa pilha de bits, tão igual a tudo, que escorrega da nossa memória pra uma memória magnética da qual ninguém lembra.

Bora ignorar o passarinho, nunca mais falar xis, vamos ver o que o milésimo esconde de nós, vamos velar e revelar nossas próprias personas. Mil grãos de arroz suspensos, cada um mirando pra onde queria, fazendo sua própria foto na memória, enquanto o profissional clica tudo sem juízo, só beleza.

Santuário da Santíssima Trindade – Tiradentes – MG

Pois já se virou a folhinha, e segue a saga incompleta da viagem às Cidades Históricas de Minas Gerais, feita em algum mês do ano passado que não me recordo agora. Estou lá pelo terceiro, quarto dia. A intenção junta nobreza e narcisismo: tendo recolhido fotografias que não vejo indexadas por aí na rede (contando com as imperfeições do Google e congêneres), principalmente dos interiores desses patrimônios históricos, eis a parte nobre. O resto, é porque eu quero.
O Santuário da Santíssima Trindade, nascida capela em 1776, tem como “reason why” ter sido frequentada (trema de saudades) pelo único alferes Tiradentes. Já antes me referi no orgulho de, no meio de tantas igrejas suntuosas, destacar-se e importar-se com as igrejas mais simples. Esta é, sem dúvida, uma do caso, e sua simplicidade ganha o mérito de ainda por cima, ter sido local de oração do patriarca da independência, devoto da Santíssima Trindade (motivo que derivaria no triângulo presente na bandeira da inconfidência – de Minas depois).
Algo que ainda não citei por essas bandas e, sendo um mero turista na nação dos católicos, me surpreendeu foi a quantidade de representações de Deus. Da lista das coisas às quais nunca se para pra pensar, a imagem do tiozão barbudo, todo sábio e europeu, pensava eu que era muito da tradição oral, mas nas igrejas de Minas existem muitas representações do Deus cristão. No Santuário da Santíssima Trindade há uma destas imagens, em tamanho natural, em toda pompa.


Lá é bacana que você pode subir pela lateral e atrás do altar, pra ver um salão de igreja de uma perspectiva rara. E dois painéis laterais, muito mais pro nosso tempo, que descrevem milagres da Santíssima Trindade.