Monthly Archives: January 2007

Populismo versus nada

Até hoje se pergunta o porquê da reeleição de Lula, em um suposto contra-senso da tendência observada no primeiro turno. Claramente é impossível chegar a uma resposta final. O Bolsa Família é um dos líderes no pregão destas apostas de jogo terminado.
A liderança carismática de Lula, ainda forte entre as camadas mais pobres e em descenso entre as classes médias, gera confusão acerca dos meios e fins do programa, considerado populista. Populismo de verdade é a arte de fazer com que a nação esteja muito agradecida em não receber nada.
O Bolsa Família vem, depois de tantas panacéias, tratar de um problema simples (pessoas que não tem dinheiro) com uma solução simples (dar dinheiro às pessoas). Fosse um projeto mais complexo, de tantos que já vimos, tratado por especialistas e intelectuais, visando efeitos “nunca-dantes”, baseados nas teorias mais atuais de macroeconomia, da sociologia, da astrologia e da política, estaríamos com mais uma agência ou secretaria especial, mais um cabide de empregos, mais uma logomarca transada, mais publicidade na TV, mais comunistas-limonada a liderar oficinas disso e daquilo (sob as expensas do Estado).
E dá-lhe mais publicidade na TV, com criancinhas claramente pobres, embora sorridentes a demonstrar a uma nação desavisada que existe um programa revolucionário em andamento, embora ninguém veja. E assim que tomamos conhecimento dos programas sociais, assistindo pela telinha a inauguração de um prédio lindo, uma apresentação de tocadores de tambor, água cristalina jorrando em escovas de dente e lançamento de pedras fundamentais.
Enquanto a UEPP – a maravilhosa Universidade para Ensinar as Pessoas a Pescar – não entra em funcionamento, os beneficiários do Bolsa Família agradecem com razão a sardinha mensal recebida.

Deputado Esperança

Tudo bem noticiar o perfil dos doadores de campanhas eleitorais. É um passo a mais (vivas ao TSE) na desejada transparência do Estado democrático.
Impressiona, todavia, quando os números ratificam os velhos “lobbies” do Congresso, como alguns comentadores da imprensa tratam do assunto com tamanha virginalidade.
Para consultar as contas do seu candidato, acesse o site do TSE.

Destaque para o deputado federal Ciro Nogueira (PP-PI), corregedor da Câmara dos Deputados, que registrou doações de R$ 180 mil da empresa “Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas”.

Marketing Pessoal

O filósofo Bento Prado Jr. morreu neste 12 de janeiro de 2007. Entre todas as elegias imperaram os testemunhos sobre a acessibilidade, simpatia e a ausência de estrelismo desse acadêmico.
Não li nada de sua obra e, ademais, leio qualquer coisa que me caia nas mãos como um folhetim, de bulas de remédios a tratados de filosofias – talvez uma evidência do meu entendimento obtuso de tudo.
O que chama a atenção em tudo isso é a raridade de uma figura “bacana” em qualquer meio que seja. Das academias ao mundo das celebridades do cinema, incluídos aí os curraizinhos onde vivemos nossa existência de menor alcance. Bento Prado Jr., com sua personalidade, ofusca o vulto da própria obra.
Na selva em que temos que criar nosso renome, vale amplificá-lo artificialmente. No ataque (sendo a melhor defesa) é necessário levar nosso próprio tapete vermelho debaixo do braço, espocar os flashes sobre nós mesmos. É assim que conseguimos empregos, clientes, bolsas acadêmicas, amigos e pares: espaço e sobrevida.
Mundo chato, em contraste ao mundo bacana desse Sr. Bento Prado Jr.