Monthly Archives: April 2007

Por um punhado de sic’s

Todo mês eu busco (ou buscamos) ler o editorial da revista Dystak’s, colunismo social (prefeitismo colunal?) possível aqui de Uberlândia. A regularidade dos textos sempre impressiona. Como não estou na lista de entrega desta revista gratuita para o jet set triangular, fiquei feliz em descobrir que o conteúdo integral está online. Pena que só o número atual.

O estilo kerouaquiano do editorial sempre me encanta (ou nos encanta). Reproduzo aqui o último, como sempre um relato pio e tocante, reunindo história, aconselhamento, opinião…..(reticências superlativas):

Fecham-se as cortinas… termina o espetáculo

Mauro Mendonça dos Santos

Até a década de 80 o rádio AM dominava a audiência em todos os setores de comunicação no mundo. Vieram as TVs, as FMs e hoje há uma divisão muito grande com privilégios para os musicais, onde esportes, notícias e reportagens ficaram em segundo plano, deixando automaticamente o conhecimento dos ouvintes, informados apenas pelos canais de TV que ainda possuem restritos, mas minuciosos noticiários e que nos dão suporte de interesse por cada acontecimento.
São poucos os programas noticiosos, pois até por desinformação profissional os companheiros da imprensa limitam-se aos programas musicais. Produzir um bom programa noticioso requer profissionalismo, boa vontade e amor à arte da notícia.
Cabe ao repórter analisar aquilo que é de interesse e que não ferirá o próximo, principalmente os filhos. Tem que se saber divulgar a notícia, a foto e o fato, pois o profissionalismo, o carinho e o respeito, devem andar juntos com a informação.
Oriundo do rádio AM (Educadora, Cultura e Difusora), sempre admirei os grandes artistas e vários locutores, me chamavam a atenção, muitos de saudosas lembranças.
A nível nacional tínhamos vários destaques, mas como era gostoso escutar Fiori Gigliotti (Bandeirantes AM/São Paulo). Como líder de audiência nos comentários, narrações e outras aparições, Fiori tinha uma frase que serviu, serve e servirá para todos em qualquer época: “fecham-se as cortinas…. termina o espetáculo torcida brasileira,” alusão ao final de cada partida de futebol.
É, realmente ao analisar todos os aspectos da vida a cada dia, abre-se uma cortina e repentinamente fecham-se outras. São empresas, amizades, conclusão de cursos, matrículas, tudo novo, tudo diferente, dependendo de como encaramos os fatos. Até a vida é um fechar de cortinas, onde a saudade fica, as lágrimas rolam e vem a pergunta: porque não fizemos antes?
Viver o hoje como se fosse o último dia de nossas vidas. Fazer uma ligação dando um alô, uma visita surpresa, tudo de bom quando se faz com amor.
Aliás, a todo instante nós aprendemos a diferença e muitas vezes não aplicamos. A sutil diferença de se dar as mãos e acorrentar uma alma. Você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são comprados e presentes não são promessas, começando a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos radiantes, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
Devemos aprender construir tudo na estrada do hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para planos.
Acabamos descobrindo que o sol queima se ficarmos expostos por muito tempo. Aprendemos que não importa o quanto sentimos. Algumas pessoas simplesmente não importam. Aceitamos que não se importa tão boa seja essa pessoa, pois ela vai acabar nos ferindo de vez em quando e precisamos perdoá-la por isto.
Aprendemos que no dia a dia falar pode aliviar dores emocionais. Descobrimos que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la. Muitas vezes fazemos coisas por um instante e nos arrependemos pelo resto da vida.
Aprendemos que as grandes amizades continuam crescendo mesmo estando à distância. O que importa não é o que é a vida, mas quem nós temos na vida e que os amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendemos que não temos que mudar de amigos se os amigos mudam. Quem sabe se você e seu amigo podem fazer qualquer coisa, ou nada, mas terem bons momentos juntos.
Um dia a gente descobre que as pessoas que mais encontramos na vida, são tomadas muito depressa, e se pensarmos devemos curtí-las com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vemos. Aprendemos que as distâncias e os ambientes têm influências sobre nós, mas somos os responsáveis por nós mesmos. Comece hoje a aprender que não devemos nos compararmos com os outros, mas com o melhor que pode ser. Com as ações descobrimos que se leva muito tempo para tornarmos a pessoa que queremos ser e que o tempo é curto. Aprendemos sempre que não importa aonde já chegamos, mas onde estamos indo.
Se você não sabe onde está indo, qualquer lugar serve. Aprenda que, ou você controla seus hábitos ou eles o controlarão e que ser flexível não significa ser frágil ou não ter personalidade, pois não importa como delicada e frágil seja uma situação: sempre existem dois lados.
Aprenda que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências, pois paciência requer muita prática. Descubra sempre que a pessoa que você chuta quando ela cai é uma das poucas que vai levantá-lo quando precisar.
Você deve aprender que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que se teve e você aprendeu com elas mais de que com os muitos aniversários que celebrou. Aprenda sempre que nunca se deve dizer a uma criança que sonho é bobagem. Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprenda que quando está com raiva, você não tem o direito de ser cruel, pois muitas vezes descobrimos que as pessoas não nos amam como gostaríamos, ou elas simplesmente não sabem demonstrar isto.
Você às vezes tem que perdoar a si mesmo, pois nem sempre temos direitos e muitas vezes deveres e quando julgamos alguém também somos julgados.
Na análise, no julgamento, na inspiração, na vida, no amor, na convivência, no trabalho ou simplesmente no dia a dia viva o hoje, pois o amanhã é incerto.
Jamais queremos quando formos colocados na horizontal sobre uma lápide de pedra com os dentes cerrados, olhos fechados, mãos atadas, alguém que não encontrou tempo para nos dizer o que sentia no dia de ontem, buscar inspiração, lembrar o que deixou de fazer e no infinito da oração dizer para Deus: é…..
Fecham-se as cortinas… termina o espetáculo.

23 anos mais tarde, a profecia de Orwell se cumpre

Já ouvi variantes de um diálogo mais ou menos assim:

– Você já leu “1984”, do George Orwell?

– Já… Ainda bem que acabou o comunismo!

Em seu livro mais famoso e influente, crítica ao totalitarismo e à máquina de comunicação e controle instalada por este tipo de Estado, Orwell lançou o “Big Brother” (cujo programa homônimo é somente uma piada de mau gosto) ou “Grande Irmão”. Em todo lugar pra onde o cidadão olhasse, veria a mensagem “O Grande Irmão te observa”. Com o melhor interesse do povo em mente, um sistema de câmeras/transmissoras estava em todos os lugares, emitindo mensagens e captando os passos de todos.

Anti-stalinista óbvio, Orwell sempre foi citado como exemplo de crítica ao comunismo e muitos tratam “1984” como uma biografia não-autorizada do comunismo soviético.

Mais verdade me parece que Orwell tenha tido vistas a todo e qualquer totalitarismo estatal, ele que auto denominou-se um socialista democrata.

O website “This is London”, traz em 3 de abril de 2007 matéria sobre a existência de 32 câmeras de vigilância pública em um raio de 180m da casa onde viveu George Orwell, isso sem contar as câmeras de estabelecimentos particulares, que podem chegar às centenas.

Mapa das câmeras na área da casa de George Orwell

Alguns já consideram um risco tal quantidade de câmeras. Estima-se que um londrino que saia nas ruas é registrado 300 vezes por dia. É muita informação sobre um indivíduo e devido aos padrões comuns a muitos destes sistemas de vigilância, tais dados podem ser facilmente acessados, se não por órgãos do governo, por qualquer pessoa ou organização com meios e uma agenda qualquer de intenções obscuras.

Deixando de lado o valioso debate que opõe o direito à privacidade com a necessidade de segurança, é de espantar a quantidade de pessoas que, sem ser por descaso pelo primeiro motivo ou apreço pelo outro, não se importa em ser filmada constantemente. E pensa que quem se incomoda em ser escrutinado deve ter alguma culpa no cartório.

O grande argumento tácito que “1984” carrega é a adesão, ou pelo menos a postura acrítica que todos tinham com a vida cotidiana retratada, salvo o protagonista que vai desenvolvendo um sentido de revolta muito rústico (que é então o mais elaborado possível). Será que hoje em dia vale um “Trabalhadores do mundo, desuni-vos”?