
Via Flickr:
Taken in 2006, in Goiás – Brasil

Mover um pensamento linear
Não divagar
Ignorar o mal
que o senhor tem a seu lado
Unir as mãos
E despeitar o aleijão
Adorar,
a dor a dourar
o rosto lívido
]]>Deixa madeixas atrás de si de uma cabeleira petrificada
Bandeirola de energia tremulando abandonada
Refina parafina, a vela é seu cheiro quente
Cobre um pires de porcelana um cemitério da claridade
Impávido pavio incandescente
Espírito da vela que ilumina, vejo a via do papel
]]>ideal
Tão utilizado quanto inútil
Muitas vezes
Trouxe suvenires
Desta aldeia da idéia
E lá deixo meus
Pobres cobres
Isso vai me matando
Da fome do tátil
Do crível e amável
Da pequena bela idéia
Estou fugindo
Do seio do ideal
Para o agasalho
Do seio do seio real
]]>Como filhos separados ao nascer
Correm para encontrar o infinito
Mas só vão e vêm, porque trem.
Alargo os passos pra pisar dormentes
E posso estar fugindo
Faz um sol parado dos diabos
Cascalho pra todos os lados
Só cacos na bagagem
Alguns colados pelo caos, como retalhos
Outros sós, cacos cortantes
Pó de tudo, pó de nada
Sempre ao ser esquartejado
Pelo aço e pelo diesel que se enroscam
Fico contemplando daqui a idéia
De descarrilar numa tangente
]]>Vai sendo velado aos nacos
em gomos de carne
Vai sendo velado aos nacos
em dentes protéticos
Em histerias protéicas
Agora, o assado é passado
A nudez testemunhal de um animal
É sua espinha limpa numa travessa opaca
]]>E o gato na almofada
São gatos os dois
Nunca
Um é gato na almofada
O outro é gato depois
Um é gato de dia
Nos pelos e nas preguiças
O outro vira lixo
Nas unhas e nas malícias
Um é gato de noite
E briga contra um Deus pardo
O outro na almofada
Ludibriando um Deus dono
]]>Não queira me ter
Só queira me ter agora
no tempo parado.
Esquece a excitação histérica
Ignora toda escola
Enquanto caminha no quarto
e sente o ar parado bater nas carnes
mais brancas, menos
afeitas aos tatos.
Começa a pousar teus ossos
Nas cobertas, nas mobílias, nos tapetes
Com o tempo, tudo some,
Tudo soma e acontece.
Ignora e sente meus dentes,
Larga a voz.
Entende a dor, sonda
Já estamos dissolvendo
Aperta o corpo querendo
meu espaço; estou aonde você está.
Todas as vísceras são agora,
cabelos, dedos, líquidos.
Quem podia imaginar
o mundo sem chão?
Tudo.
]]>Em frente às prateleiras, seus olhos penduram
Naqui e ali, a vidraria e os doces
Um homem espera e não pode
por uma menina cada decisão mais adulta
Ela vê formas, a ânsia excita
O homem busca constranger, e a menina só fita
São seus olhos os doces, coloridos e cheios de formas
E outros fregueses querem salgados
Mas ela aperta seu gosto e nada decide
E sabe, a grande impaciência
é ela quem passa
e balança o corpinho pra todo lado
Querendo um caminho. Um se retira
Eu quero aquele. Rápido.
E come pensando nos outros.
]]>Estejam meus pés na estrada, meus olhos colam
Nas árvores fisionômicas
Escalem meus pés as árvores, meus olhos
cismando no fim dos caminhos
Meus sapatos são minha casa, me emprestam a vida
Meus olhos me dão sonho, me dão morte
Curam vida
Meus pés sentem dores levando minha vida a ver as cores
Deixo que clamem e perfumem: não reclamo
Mas o que se forma em meus olhos nada turva
Olhos correm como os pés não vêem a hora
De estarmos
eu,
olhos, e
pés, e
sapatos
num mesmo lugar, mesmo momento
]]>Eu, desanimado tentando animar objetos
Abjeto, sem objetivo querendo vivificar
Ânima; suspiro atrás de suspiro buscando expirar
Rapidamente, por vezes devagar e quando quase parando
Desânima, inerte como algum objeto inerte posto de lado
Esperar sem poder, reanimar, criar
Pirar, silenciosamente.
]]>Sou computador
E minhas digitais
em pessoas e locais
Aparecem num visor
Que eu, multiprocessador
Liquidifico antes de dormir
]]>Gritos não se ouvem, movem-se no ar num grande silêncio preto.
Crivam os gritos corvos as tábuas de salvação e as tábulas rasas, bem
como as covas arrazoadas dos envelopes de vida.
Quem gritou não ouviu; quem desesperou, esperava.
Um pedaço de nada é uma fé sem fiel, e contém um problema seu que não
sabe ouvir.
Feliz o surdo, o que não está, o que se compara a nada, o que chega sem
saber que partiu.
Grita quem não consegue se matar com um silêncio na cabeça.
]]>Não quero as mães de meus filhos aeróbicos
Nem o enfeite de um homem impávido
Mas tu? tu partires?
A alma gêmea do trapo esquálido
A metade de uma jura de amor no sofrimento
Sofro que sofro por aí; sofro que sofro sozinho.
Ainda vago pelo nosso caminho e vejo teu sangue no cercado
No farpado da lembrança
da agonia feliz de sofrer junto, muito.
]]>